Tem que

Talvez por ter ascendente em aquário, eu sempre fui aquele tipo de pessoa bastante contestadora. Quando ouvia a expressão “tem que”, eu já emendava mentalmente com um “tenho que nada”. Mas tem uma coisinha que eu sempre me orgulhei de ser e achava que de fato tinha que. Ser educada.

Ser reconhecida pelos outros e me enxergar como alguém bem educada e até “polida”, era algo que eu considerava imprescindível. Acredito que essa característica contribuiu para que eu fosse bem recebida e, quem sabe também, desejada nos lugares. Me colocava numa caixinha que fazia eu me sentir especial, sem perceber que estava limitada.

Carregar esse título de “educada” me fazia acreditar que eu devia SEMPRE responder mensagens. Quem é próximo a mim já deve ter ouvido ao menos uma vez “ah, o mínimo é responder em algum momento, nem que seja por educação”. Responder mensagens é uma questão de educação, sim, e também não nos custa nada. Ou será que custa?

Será que é justo comigo “ser educada” numa dinâmica desequilibrada? Nem falo aqui de situações muito desproporcionais, que envolvam algum tipo de desrespeito. É sobre aqueles momentos em que percebemos que essa boa educação não pode vir antes do senso de autovalor e que eu não preciso alimentar uma troca sem reciprocidade, nem que seja “por educação”.

Imagine o seguinte cenário: de vez em quando, numa praça, uma pessoa joga migalhas de pão e um pássaro aparece para comê-las. A pessoa nunca oferece mais do que migalhas, mas o pássaro continua vindo até ela e comendo os farelos de pão. Até que um dia, o pássaro percebe que essas migalhas não matam sua fome, não satisfazem seu desejo e ainda o distraem de buscar uma alimentação mais abundante. Então, ele para de comer as migalhas. A pessoa joga, o pássaro vê, mas não come mais. Embora não esteja totalmente confiante de que está tomando a melhor decisão, afinal, ele se sentia bem por ter aprendido o “truque” de comer as migalhas sempre que elas eram oferecidas, o pássaro percebeu que aquilo que não o alimenta, tampouco faz falta.

Eu sou esse pássaro. E entender que algumas interações não valem a minha atenção, não é uma questão de falta de educação, mas de valorização do meu tempo, da minha energia e dos meus desejos.

Quem quiser trocar comigo, que venha disposto e me ofertar mais do que farelos, curtidas, reações em redes sociais, conversas vazias em aplicativos de mensagens. Que venha disposto a olhar no olho na hora de dizer o que quer e o que não quer, a sentir o coração batendo no abraço demorado, a misturar o suor das mãos. Porque se é com essa entrega, com essa verdade e com esse respeito que eu me relaciono, é isso que eu preciso ter de volta.

Quem não está disposto a dar, não tem espaço para receber.


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