Há muito venho refletindo sobre as minhas relações afetivas. Mais especificamente, as de amizade e romance têm me trazido grandes aprendizados sobre quem sou, o que quero, o que preciso de fato e o que é pura vaidade.
Nesse caminho de pensamentos, comecei a observar com mais atenção o que me levou a certas escolhas que me provocaram um sentimento tão forte de apego a outras pessoas e situações. Por que eu sentia tanta urgência em fazer morada do lado de fora, às vezes até ao relento? Como se me jogar de precipícios fosse mais reconfortante do que me guardar em mim.
Seria pela excitação? Pela intensidade das emoções do salto? À primeira vista, parece fazer sentido, mas… Pensando bem, cá dentro a intensidade não é menor.
Talvez o medo fosse.
Nunca, em qualquer hipótese, sequer considerei que eu pudesse ser “esse tipo de pessoa” que tem medo de si mesma, de encarar os sentimentos, de mergulhar dentro. Logo eu, nativa das densas e obscuras águas escorpianas? Como seria possível alguém que é puro sentimento ter esse tipo de receio? De jeito nenhum!
Mas tinha, sim. Todo mundo é esse tipo de pessoa em algum momento, seja qual for a história de vida ou a configuração astral. Essa vulnerabilidade é parte do ser humano. E acho até que lá, no fundo, eu sabia que essa intensidade toda me fugia, mas de alguma forma pensei que seria mais fácil encontrá-la fora, como um cachorro que corre atrás do próprio rabo, sem se dar conta de que aquele pedacinho também é parte de seu corpo.
Só agora, depois de aprender a entrar em mim mesma, vou arrumando a bagunça, aos pouquinhos, como alguém que recebe de herança a casa da infância e volta a morar ali. Reconhecendo cada espaço, cada problema estrutural e lidando com tudo isso da forma que é possível, mas sem negligenciar, nem deixar nada para depois, porque naquele momento essa casa voltou a ser o meu lar.
E não tem coisa mais gostosa do que esse retorno ao lar. Aprender a habitar em mim, para nunca mais sentir necessidade de morar nos outros. Saber preservar, respeitar e amar quem verdadeiramente sou, para poder compartilhar momentos com quem chega, sem mais me perder de mim.
Não é que a gente só tenha a si, mas é preciso aprender a se conhecer, antes de começar a conhecer de verdade qualquer outra coisa.
Texto originalmente escrito em julho de 2022 e reescrito em agosto de 2024.

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