Uma espiritualidade que responsabiliza.

Eu acredito em uma espiritualidade que responsabiliza, mas não culpabiliza. A culpa é um sentimento que leva à estagnação e ao sofrimento, mas não é construtivo. É natural sentir culpa e isso, por si só, não é um problema. No entanto, ao se perceber sentindo culpa, é necessário tratar esse sentimento de forma resolutiva: “Ok, eu me responsabilizo pela forma como agi, aprendi que não é justo, seja comigo ou com o outro, e vou tentar agir diferente a partir de agora”. Isso é se conscientizar.

Foi me conscientizando, que aprendi a olhar para cada situação buscando aprendizado, sem acreditar que o sofrimento é necessário para que se aprenda algo. O sofrimento, em geral, é a consequência de más ações, que ora partem do outro, ora de nós mesmos.

Gosto da ideia de que a justiça divina não pune nem recompensa, apenas transforma as energias para gerar harmonia. Nesse sentido, os desastres naturais não são um castigo, mas uma consequência da ingerência humana sobre os recursos naturais e a infraestrutura das cidades. É muito nítido, por exemplo, que o que aconteceu no Rio Grande do Sul não precisava, nem deveria, ter acontecido.

A humanidade já tem os recursos, a tecnologia e os conhecimentos necessários para que eventos climáticos extremos sejam prevenidos e tenham suas consequências conduzidas de maneira mais eficiente e responsável com a coletividade. Aliás, o simples fato de haver eventos climáticos extremos, já diz muito sobre a nossa relação com os recursos naturais e a maneira parasitária como nos relacionamos com a natureza.

Embora eu acredite que o sofrimento não é necessário ao aprendizado, diante dessa situação de extremo sofrimento, temos alguns aprendizados bastante importantes, que serão necessários para nos prepararmos melhor para o futuro.

Catástrofes são situações que escancaram problemas que já existiam e eram ignorados ou subestimados. No caso dessa tragédia no RS, ficou mais do que evidente a importância do estado e de escolher gestores comprometidos com a questão ambiental e indígena – que para quem não sabe, são indissociáveis.

Federal, estadual e municipalmente, precisam existir políticas de preservação da natureza, planos de contingência para catástrofes naturais (porque elas vão se tornar mais frequentes), políticas de restituição e amparo financeiro das pessoas atingidas, que não implique o endividamento das famílias.

Não dá para achar aceitável que uma pessoa perca todos os seus bens, por incompetência da gestão municipal e estadual, e depois ainda ganhe de presente uma dívida, enquanto contribui para o enriquecimento dos bancos. Isso não é reparação, nem justiça, é a iniciativa privada tirando proveito do sofrimento coletivo.

Esse texto é um pouco um desabafo e um pouco um alerta, porque, em alguns meses, teremos eleições municipais para escolher prefeitos e vereadores das nossas cidades. Antes de decidir em quem votar, pesquise que tipos de projetos aquele candidato ou o partido dele tem levado para a câmara. Considere as pautas de habitação, mobilidade urbana, saúde e meio ambiente como prioridades na sua escolha. A opção por esses candidatos pode determinar se em alguns anos você será um refugiado climático ou não.

O que acontece agora em quase 500 cidades do RS, amanhã pode acontecer no seu estado. Você pode pensar: “Ah, mas na minha região não alaga”. Em várias cidades do RS, atingidas pelas enchentes, as pessoas também pensavam assim. O que não alaga hoje, pode alagar amanhã. Ou pode se tornar insuportavelmente quente e sem acesso à água. A gente não tem muita clareza do que pode acontecer em cada lugar, mas é sabido que as consequências são extremas e os eventos serão cada vez mais frequentes.

A melhor forma de se preparar para o futuro é escolhendo muito bem quem vai nos representar nas decisões sobre leis de preservação ambiental, porque a preservação da natureza é, cada vez mais, a preservação da nossa própria casa.


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