“O que é teu já tá guardado, não sou eu que vou te dar”

“O que é teu já ‘tá guardado
Não sou eu que vou lhe dar
Não sou eu que vou lhe dar
Não sou eu

Eu posso engolir você
Só pra cuspir depois
Minha fome é matéria que você não alcança
Desde o leite do peito de minha mãe
Até o sem fim dos versos, versos, versos
Que brotam no poeta em toda poesia
Sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi
Se choro, quando choro, e minha lágrima cai
É pra regar o capim que alimenta a vida
Chorando eu refaço as nascentes que você secou
Se desejo
O meu desejo faz subir marés de sal e sortilégio
Vivo de cara pra o vento na chuva
E quero me molhar
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi cruzam o meu peito

Sou como a haste fina
Que qualquer brisa verga
Mas nenhuma espada corta”

(Carta de Amor – Maria Bethânia e Paulo Cesar Pinheiro)


Gosto muito dessa música de Bethânia, falando sobre quem a protege. Sempre achei uma música linda, forte e poderosa, mas, recentemente, ganhou outro significado.

Só a esta altura da vida, passei a ter uma nova compreensão sobre a justiça. Com muito custo, comecei a entender que o que eu considero – ou considerava – justo, não passa de uma ilusão.

Me frustrava muito ver pessoas que me fizeram mal tendo uma aparente prosperidade. Não é raro ficar sabendo que um ex-afeto já está noutra relação, ou alguém que me prejudicou profissionalmente está ascendendo na carreira, ou pessoas realmente más que seguem suas vidas como se nada tivessem feito (que o diga o nosso ex-presidente). Porque essas pessoas logo recebiam bençãos da vida, enquanto eu, que tinha feito tudo “certo”, seguia na merda?

O primeiro passo foi entender que eu não fiz tudo certo, na maioria das vezes. Errei muito com o outro e, sobretudo, comigo mesma. Era precisamente isso que eu não estava sabendo enxergar. Eu vivia me ferindo para não incomodar o outro e não entendia que esse comportamento me mantinha afundada na lama.

Mais tarde, também passei a entender que existe alguma justiça, sim, mas não sou eu quem determina como nem quando ela vai acontecer.

A gente vai ter que “engolir” pessoas que nos machucaram sendo felizes, porque a vida de ninguém é só dor e sofrimento.

As lágrimas que eu derramo não são ignoradas. Elas servem para reconstruir o solo onde eu piso, para fortalecer minhas bases. Não que o objetivo seja esse, porque não é. O objetivo é o aprendizado, já a maneira como ele acontece, vai depender do quanto a gente resiste a aprender.

Hoje, eu escolho por mim e sei que se ainda dói tanto decidir por esse caminho, é porque ainda resisto a aprender mais esta lição. Por isso, peço tanto para conseguir soltar toda a mágoa, todo o sentimento, todo o apego, toda a idealização. Que permaneça apenas a verdade dessa situação e o amor que tenho por mim.

Cada um há de ter a sua lição, no momento devido, e a mim só cabe o meu próprio aprendizado.


Imagem: Carta da Justiça, Nosotras Tarot – Elisa Reimer.


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